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Declarada a
Independência, a Província só foi reconhecê-la em agosto de
1823.
A adesão ao governo de D. Pedro I foi penosa e
violentamente imposta. Administrada por juntas governativas
que se apoiavam nas
cortes de
lisboa, os habitantes da Província já
estavam acostumados a ver todos os cargos públicos e
recursos econômicos nas mãos dos portugueses.
Os Cabanos
A
Independência não provocara mudanças na estrutura econômica
nem modificara as péssimas condições em que vivia a maior
parte da população da região, formada por
índios destribalizados, chamados de tapuios,
índios aldeados,
negros forros, escravos e mestiços.
Dispersos pelo interior e nos arredores de Belém, viviam
marginalizados em condições miseráveis, amontoados em
cabanas à beira dos rios e igarapés e nas inúmeras ilhas do
estuário do rio Amazonas. Essa
população conhecida como "cabanos", era usada como
mão-de-obra, em regime de semi-escravidão, pela economia da
Província, baseada na exploração das "drogas do sertão" (
cravo, pimenta, plantas medicinais, baunilha), na extração
de madeiras, e na pesca.
Desde
a Guerra da Independência, quando
mercenários, comandados pelo Lord
Almirante Grenfell, destituíram a Junta que governava a
Província, o povo exigia a formação de um governo popular
chefiado pelo cônego João Batista Gonçalves Campos. No
entanto, Grenfell, que recebera ordens para entregar o
Governo a homens da confiança do Imperador, desencadeou
violenta repressão, fuzilando e prendendo muitas pessoas. O
episódio ocorrido a bordo do brigue Palhaço, quando cerca de
300 prisioneiros foram sufocados com cal, não conseguiu
implantar a normalidade. Ao contrário os ânimos ficaram
ainda mais exaltados.
A
própria Junta que assumiu o governo da Província, em agosto
de 1823 confessava: "Sentimos não poder afirmar que a
tranqüilidade está inteiramente restabelecida porque ainda
temos a temer, principalmente a gente de cor, pois que
muitos negros e mulatos foram vistos no saque de envolta com
os soldados, e os infelizes que se mataram a bordo do navio,
entre outras vozes sediciosas deram vivas ao Rei Congo, o
que faz supor alguma combinação de soldados e negros".
A
situação da Província do Grão-Pará era, portanto, favorável
ao surgimento de movimentos que expressavam a luta de uma
maioria de índios, mestiços e escravos, contra uma minoria
branca formada, principalmente, por comerciantes
portugueses. Essa minoria concentrava-se em Belém, cidade
que na época abrigava cerca de 12 mil moradores dos quase
100 mil que habitaram o Grão-Pará. Entre 1822 e 1835 a
Província passou por momentos de intranqüilidade. No
interior e na capital ocorreu uma série de levantes
populares, que contaram com a adesão dos soldados da tropa,
descontentes com o baixo soldo, com o poder central e com as
autoridades locais.
A
REVOLTA DOS CABANOS
A
abdicação de D. Pedro I teve reflexos violentos
no Grão - Pará. Sob a liderança do cônego Batista Campos, os
cabanos depuseram uma série de governantes nomeados pelo
Rio
de Janeiro para a Província. Além disso, exigiam
melhores condições materiais e a expulsão dos portugueses,
vistos como os responsáveis pela miséria em que viviam. Em
dezembro de 1833, o Governo da
Regência Trina Permanente conseguiu retomar o
controle da situação, e Bernardo Lobo de Sousa assumiu o
governo da Província.
Segundo o historiador Caio Prado Júnior, "é neste governo
que propriamente se inicia a revolta dos cabanos." Logo após
ser empossado, Lobo de Sousa iniciou uma violenta política
repressiva. Perseguiu, efetuou prisões arbitrárias e
deportações em massa. No entanto, foi o recrutamento para o
Exército e a Armada imperiais, medida extremamente
impopular, que precipitou uma rebelião generalizada. O
recrutamento permitiu que fossem afastados os elementos
considerados "incômodos" ao governo da Província. Para
Domingos Antonio Raiol, contemporâneo dos acontecimentos, a
política de Lobo de Sousa conseguiu eliminar aqueles que
"eram conhecidos por suas doutrinas subversivas, que
pregavam e inoculavam no seio da população e que ameaçavam a
ordem pública pela influência perigosa que exerciam entre as
massas."
As
atitudes de Lobo de Sousa aumentaram a agitação e o
descontentamento da população. A revolta se alastrou pelo
interior da Província. Os cabanos receberam o apoio dos
irmãos Antônio e Francisco Vinagre, lavradores do rio
Itapicuru do seringueiro Eduardo Nogueira Angelim, e do
jornalista do Maranhão Vicente Ferreira Lavor, que, através
do periódico A Sentinela, propagava as idéias
revolucionárias. À medida que o movimento avançava, os
revoltosos se dividiam: a ameaça de radicalização fez com
que muitos se retirassem temendo a violência das massas
populares, enquanto outros, como o cônego Batista Campos,
esperavam obter as reformas que defendiam na recém-criada
Assembléia Legislativa Provincial. A partir daí a elite que
liderara a revolta recuou e os cabanos assumiram o controle.
Em
janeiro de 1835, dominaram Belém, executando o governador
Lobo de Sousa e outras autoridades. O primeiro governo
cabano foi entregue ao fazendeiro Félix Antonio Malcher,
que, com medo da violência das camadas mais pobres da
população, entrou em choque com os outros líderes
perseguindo os elementos mais radicais. Chegou a mandar
prender e deportar Angelim e Francisco Vinagre. Além disso,
manifestou a intenção de manter a Província ligada ao
Império, ao jurar fidelidade ao Imperador, afirmando que só
ficaria no poder até à maioridade. Esse juramento ia de
encontro ao único ponto que unia os revoltosos: a rejeição à
política centralizadora do Rio de Janeiro, vista como
preservadora dos privilégios dos portugueses. Malcher acabou
sendo deposto e executado.
Francisco
Vinagre foi escolhido para o segundo governo cabano. No
entanto não foi capaz de resolver as divergências entre os
revoltosos, e foi acusado de traição por ter feito um acordo
com as tropas legalistas enviadas pelo Rio de Janeiro.
Vinagre ajudou as tropas e navios sob o comando do Almirante
inglês Taylor, e prometeu entregar a presidência da
Província a quem fosse indicado pelo
Governo Regencial. As forças regenciais retomaram
Belém.
Os
cabanos, vencidos na capital, retiraram-se para o interior.
Aos poucos foram tomando conta da Província. Profundos
conhecedores da terra e dos rios, infiltraram-se nas vilas e
povoados, conseguindo a adesão das camadas mais humildes da
população. Liderados por Vinagre e Angelim, reforçaram suas
tropas e retomaram Belém, após nove dias de lutas violentas.
Com a morte de Antônio, Eduardo Angelim foi escolhido para o
terceiro governo cabano que durou dez meses. Angelim era um
cearense de apenas 21 anos que migrara para o Grão- Pará
após uma grande seca ocorrida no
Ceará,
em 1827.
No
entanto, os cabanos, durante todo o longo período de lutas,
não souberam organizar-se com eficiência. Abalados por
dissidências internas, pela indefinição de um programa de
governo, sofreram ainda uma epidemia de varíola, que assolou
por longo tempo a capital.
A
REPRESSÃO DA REGÊNCIA
O
regente
Feijó
decidiu restabelecer a ordem na Província. Em abril de 1836
mandou ao Grão-Pará uma poderosa esquadra comandada pelo
brigadeiro Francisco José Soares de Andréia, que conseguiu
retomar a capital. Havia na cidade quase unicamente
mulheres. No dizer de Raiol, "a cidade despovoada
apresentava por toda parte um aspecto sombrio e contristador".
Os
cabanos abandonaram outra vez Belém e retiraram-se para o
interior, onde resistiram por mais três anos. A situação da
Província só foi controlada pelas tropas do Governo Central
em 1840. A repressão foi violenta e brutal. Incapazes de
oferecer resistência, os rebeldes foram esmagados. Ao findar
o movimento, dos quase 100 mil habitantes do Grão-Pará,
cerca de 30mil, 30% da população, haviam morrido em
incidentes criminosos e promovidos por mercenários e pelas
tropas governamentais.
Chegava ao fim a
Cabanagem que, segundo o historiador Caio Prado
Júnior, "foi o mais notável movimento popular do
Brasil... o único em que as camadas mais
inferiores da população conseguem ocupar o poder de toda uma
província com certa estabilidade. Apesar de sua
desorientação, da falta de continuidade que o caracteriza,
fica-lhe contudo a glória de ter sido a primeira insurreição
popular que passou da simples agitação para uma tomada
efetiva de poder."
Mas a
Cabanagem não foi um fato isolado. Vários outros movimentos
ocorreram durante o
Período Regencial, levando Feijó a chamá-los de
"o vulcão da anarquia". |